Único a visitar o governador afastado José Roberto Arruda na prisão, o secretário de Transportes, Alberto Fraga, admite que Arruda está chateado com o abandono. Confira mais da entrevista concedida pelo deputado federal ao jornal O Distrital desta semana:
A Câmara Legislativa aprovou a abertura de processo por crime de responsabilidade contra o governador afastado José Roberto Arruda. O que o senhor achou da decisão?
Fraga - Eu acho que desde início deveria ter sido feito desta forma. Eu acho o governador tinha receio disso, mas não tinha de temer este processo. O governo tinha maioria folgada de votos na Casa, então que votasse. E a oposição que esperneasse. O que eu acho interessante é que o que vale para nós, aqui no Distrito Federal, não vale na Câmara Federal. Lá a maioria, o trator esmagador do governo federal, age. Aqui não pode. Aliás, eu nunca vi, o que eu acho um grande erro, dar a relatoria do processo para o inimigo (o relator do pedido de impeachment do governador Arruda na Câmara Legislativa é o petista Chico Leite).
Mas o senhor não acha que entregar a relatoria a um petista é o sinal de que os governistas estão dispostos a aprovar o impeachment do governador afastado?
Fraga - Se o pensamento for esse, eu lamento profundamente. Eu costumo dizer que eu não deixo meus amigos. Se a amizade rendia frutos, após uma queda ou um erro da pessoa, eu não posso esquecer essas coisas. Isso pode ter um desdobramento ruim. Eu não sei como a Câmara Legislativa vai proceder neste desfecho, mas confesso a você que eu tenho preocupação.
O senhor acha que a base governista na Câmara abandonou o governador?
Fraga - É nisso que eu não quero acreditar. Nós temos de dividir as coisas. O governador está sendo julgado por quê? Pelo crime eleitoral que cometeu ou pela prisão? Porque são coisas totalmente distintas. As pessoas, uma hora, vão ter que entender isso. O governador Arruda está preso não por nada relacionado à Caixa de Pandora, nada. O governador está preso porque foi acusado de estar obstruindo a justiça com a tentativa de compra de uma testemunha. E isso, a prisão, não pode interferir no julgamento do impeachment. Não tem nada a ver.
O senhor acha que ele foi abandonado porque foi preso e perdeu o poder de governador? Perdeu a caneta?
Fraga - Eu penso assim. Eu defendi, e defendo, que a Câmara Legislativa precisa fazer as coisas acontecerem. Agora não é sob a batuta de Paulo Tadeu, Érika Kokay, Chico Leite, Reguffe. Não é. É a primeira vez que eu vejo, e aí me desculpem os outros deputados, uma minoria esmagadora prevalecer sobre uma maioria.
Mas a leitura que se faz desta nova postura da Câmara é que os deputados temem a intervenção federal. E entre o sacrifício deles e o do governador Arruda, ficam com o de Arruda. Não seria a teoria do salve-se quem puder?
Fraga - Eu nunca pratiquei essa política, não posso fazer essa avaliação. Mas eu acho muito ruim. Se todos nós aqui somos responsáveis pelo que esse governo proporcionou à população em termo de obras, nós temos de fazer um mea culpa também. Nós temos de entender que tudo isso foi construído por um time, por um grupo.
Eu acho que só o futuro vai nos dizer o que verdadeiramente está por trás disso. Eu não sei o que é e ainda vou perguntar ao governador. Ele deve ter conseguido angariar uma antipatia com alguém. Uma coisa forte.
A prisão do governador, o tempo do governador preso, a incomunicabilidade do governador, a falta de consideração para com o governador. Porque você como governador – e ele é governador, ele está preso, mas ele é o governador – você não ter um banheiro para ir? Você tem de pedir para ir ao banheiro, e para ir tem de ir acompanhado? Você estar preso e ter a sua porta aberta diariamente. Você não ter privacidade? Isso tudo alguém vai ter de explicar.
O senhor acha que ele conquistou a antipatia de alguém da Justiça?
Fraga - Eu não sei. Hoje quem me disse isso na prisão foi o Geraldo Naves.
O senhor foi vê-lo?
Fraga - Fui ver todos. Eles estão muito mal. Para você ter uma idéia, nós não podemos nem cumprimentá-los. Isso é coisa para preso de alta periculosidade. Preso é preso, não tem que ter regalias mesmo.
O senhor acha que a segurança está exagerada?
Fraga - Eu acho. Por isso que eu acho que é um ódio muito forte que tem aí, eu nunca vi uma coisa dessas.
Eu recebi uma informação esses dias sobre a preocupação dos EUA com a candidatura da ministra Dilma Roussef, porque o projeto de governo dela é uma espécie de ditadura de esquerda. Diz que há um temor lá fora. Veja bem, o que está acontecendo hoje com relação ao Democratas e ao PSDB, pode ter certeza que é ação dela. É uma coisa sistêmica, eu não tenho dúvida. A cassação do Kassab (Gilberto Kassab, prefeito de São Paulo, do DEM, cassado em 1ª instância por irregularidade na prestação de contas eleitorais)? Um juiz de primeira instância fazer aquilo? Pelo amor de Deus! É obvio que a coisa está vindo orquestrada.
O senhor acha que a intervenção também faz parte disso?
Fraga - Eu acho a intervenção um golpe, uma violência. Um oportunismo muito grande do PT, do governo federal. O procurador geral da República, Roberto Gurgel, está sendo o porta-voz de alguém. A peça jurídica que o procurador proporcionou é de uma incoerência e de uma inconsistência tamanha que eu tenho certeza absoluta de que o Supremo Tribunal Federal não vai acatar. Existem 130 processos de intervenção no STF, por que o do Distrito Federal tem de ser julgado com essa pressa?
É de um absurdo tão grande que na história de nosso país nunca aconteceu uma intervenção. E a Constituição Federal, no seu artigo 34m é muita clara quando diz que só se pode ter intervenção em caso de grave perturbação da ordem. Qual é a grave perturbação da ordem aqui em Brasília? Quarenta estudantes gritando? Que recebem R$ 50 do gabinete de (deputada distrital do PT) Erika Kokay? Eu não me conformo com isso.
O senhor é o único integrante do governo que continua visitando o governador José Roberto Arruda. E nem foi citado nas denúncias da Caixa de Pandora. Não teve medo de associar sua imagem à do governador neste momento?
Fraga - Eu acho que não é porque a pessoa cometeu um erro que eu tenho de me afastar. Até mesmo porque eu não acredito nisso. As pessoas já me conhecem, sabem como eu sou. Tem gente que torceu para aparecer algo contra mim. Cadê? Eu sei o que faço da minha vida. Eu não tenho rabo preso com ninguém. Eu falo o que eu sinto e não tenho preocupação. Vou visitá-lo porque ele é o governador e eu sou um secretário, mas também estou falando de um amigo. Eu repito uma frase minha que já percorreu o Brasil: “Eu não sou rato. Rato é que abandona o navio quando ele está afundando”.
Como o governador afastado está vendo esse isolamento?
Fraga - Ele reclamou disso. Ele, com a voz muito embargada, disse exatamente isso: nesses 13 dias que eu estou aqui preso, eu só vi a minha mulher e você. E eu não vou lá com mais freqüência porque não pode. E aí eu até agradeço as pessoas que estão me possibilitando visitá-lo. Elas sabem que existe uma governabilidade, assuntos que precisam ser tratados. Eu tenho aqui contratos milionários que preciso informar a ele.
As pessoas podem achar “o Fraga está pedindo uma prisão de cinco estrelas“. Não é isso, não. Mas eu já recebi presos na minha vida profissional, como o ex-presidente do Paraguai, o Alfredo Stroessner, o José Carlos Alves dos Santos, um dos envolvidos no escândalo dos Anões do Orçamento, e essas pessoas tinham uma televisão para assistir.
O governador Arruda fica lá o dia inteiro, numa sala de dez metros quadrados, uma cama de solteiro, uma escrivaninha e um sofá de dois lugares. O dia inteiro com a porta aberta e dois policiais federais na entrada. O dia inteiro. Isso não é normal. Até o 10º dia ele não tinha sido ouvido para nada. São essas coisas que não fazem sentido. E as pessoas que lerem isso precisam interpretar sem ódio, sem política partidária, porque amanhã uma dessas pessoas pode estar numa situação desta. Nem mesmo o Fernandinho Beira-mar foi tão impedido na sua rotina de preso como o governador Arruda.
O senhor acredita que o governador afastado é inocente?
Fraga - Eu não quero nem entrar neste mérito. O que eu posso dizer é o seguinte: A imagem que devastou a vida pública dele foi uma imagem de 2005, quando ele era deputado federal e estava iniciando sua campanha para governo. Aquilo tudo aconteceu no governo (Joaquim) Roriz. Muita gente não sabe disso, acha que aquelas imagens são de quando ele já era governador. Porque, lamentavelmente, ou irresponsavelmente, colocam isso nas reportagens relacionadas ao Mensalão do DEM. O que eu posso dizer é que eu acho que houve um pré-julgamento.
Da opinião publica?
Fraga - Da opinião pública levada pelas fortes imagens e pela maneira como essa notícia foi dada à população. Eu não tenho dúvida disso.
Mas aí o senhor faz parecer que a culpa é da imprensa…
Fraga - Eu não diria isso porque não foi a imprensa quem fabricou essa notícia. Veja bem, eu não quero acusar ninguém sem provas. Mas parece-me uma coisa encomendada. Veio de uma instância superior. Temos aí o maior escândalo da Telebrás (mais recente denúncia de favorecimentos envolvendo integrantes do PT). De repente, tudo isso pode ser uma cortina de fumaça para esconder outras coisas.
E para atingir o DEM o PSDB politicamente?
Fraga - Sim, porque são da oposição.
Como o senhor acha que o Democratas lidou com a situação?
Fraga – Primeiro, é bom que vocês saibam que, na campanha de 2006, Arruda teve o apoio de todos prefeitos do Entorno. E ele, Arruda, declarou apoio ao senador Marconi Perillo, que é do PSDB. E ignorou o também candidato ao Senado Demóstenes Torres, que era do mesmo partido. Talvez seja uma retaliação. Eu prefiro sair por esta linha. (O senador Demóstenes foi um dos mais incisivos na luta pela punição dos democratas do DF).
Agora a política me deu algumas coisas boas na vida, uma delas foi ter conhecido o (deputado) Ronaldo Caiado, um homem muito correto, um irmão que tenho na vida pública. Eu fiquei muito decepcionado porque ele, em momento algum, veio conversar comigo para saber o que estava acontecendo (Caiado também trabalhou pela punição dos vizinhos do DF). Ele simplesmente seguiu o Demóstenes Torres. Isso me magoou profundamente. Tanto é que estamos sem nos falar por causa deste entrevero. O Caiado me conhece, sabe que eu jamais faria qualquer coisa errada. Uma das tristezas que eu tiro deste episódio é o rompimento que eu tive com ele.
O senhor acha que o Democratas pesou a mão?
Fraga - Pesou e muito. O Democratas cortou na carne, foram rápidos até demais, mas o rótulo vai continuar. A imprensa todo dia fala Mensalão do DEM.
Mas a luta era para transformar em Mensalão do DF…
Fraga - Bom, eu vou ficar calado sobre isso para não falar bobagem. Eu acho que o Democratas não pode se tornar um partido inquisidor. Isso é muito perigoso. Você veja o PT com seus 40 mensaleiros. Ultimamente eles foram até promovidos. E os processos desses mensaleiros estão, em sua maioria, prescrevendo. E, se estão prescrevendo, é porque não há celeridade da Justiça. Mas estão cobrando celeridade no Mensalão dos Democratas. Os mensaleiros do PSDB de Minas Gerais já foram denunciados. Mas os mensaleiros do PT estão todos impunes. Ou eles acham que a população é idiota, cega, ou tem alguma coisa muito bem articulada para que isso não apareça. Eu agora vou falar disso todo dia na Câmara Federal.