Do Correio Braziliense: As escolas públicas do Distrito Federal formam um universo de eleitores que está sendo duramente disputado por candidatos ligados à educação. Cerca de 55 mil profissionais trabalham hoje na rede, que tem 501,2 mil estudantes matriculados nas unidades de ensino e projeção de um milhão de pais de alunos ligados ao sistema. Esse amplo conjunto de potenciais eleitores tornou-se o centro de uma crise instalada na Secretaria de Educação. De olho nas eleições de outubro, candidatos estão em guerra por esse apoio político.
José Luiz Valente é um dos protagonistas nessa queda de braço. Ex-secretário de Educação durante o governo de José Roberto Arruda, ele deixou oficialmente a liderança da rede pública em novembro do ano passado, no dia em que estourou a Operação Caixa de Pandora. Valente foi um dos alvos de busca e apreensão da Polícia Federal e pediu afastamento no mesmo dia da ação policial. É um dos investigados no esquema de corrupção descoberto pelo Ministério Público em parceria com a PF. Não só nega as acusações, como se inscreveu para concorrer a deputado distrital e, apesar do desgaste provocado pelo escândalo, trabalha com meta ousada para outubro.
O Correio teve acesso a e-mails trocados por Valente em que o ex-secretário expõe suas pretensões políticas com base na influência sobre a rede de ensino. Numa das mensagens enviadas a colaboradores de sua campanha (todos eles empregados na Secretaria de Educação), Valente apresenta uma planilha com a seguinte explicação: “Esta é a projeção de votos por regional, considerando uma proporcionalidade em relação aos alunos matriculados em cada uma. Vocês acham esta lógica viável do ponto de vista da experiência eleitoral????. Abs. Valente (leia fac-símile acima)”.
Na tabela remetida por Valente a diretores e professores, o ex-secretário mapeia as 14 regionais de ensino da rede pública. Para cada uma, calcula o índice de eleitores que espera ter para atingir 25 mil votos, margem que o colocaria entre os 24 distritais eleitos. Com base no número total de alunos matriculados — 501.252, segundo o censo escolar de 2008 —, Valente faz as contas de quantos apoiadores precisa fazer em cada regional. Em Ceilândia, traça sua meta mais ousada: 17,81%, o que significa 4.452 votos. Depois vem Taguatinga, onde tem a intenção de atingir 9,51%, ou 2.377 eleitores. Ele faz o mesmo exercício para Plano Piloto, Planaltina, Samambaia, Gama, até atingir marca de colaboradores que considera confortável para garantir a eleição.
Exoneração
Esse e-mail de Valente foi enviado em 13 de julho deste ano, seis meses depois de seu afastamento do GDF, evidência de que, apesar de ele ter deixado a secretaria no ano passado, ainda conta com o apoio de correligionários na rede. Colaboração que incomoda o atual comando da Secretaria de Educação. Em 27 de julho, o secretário Marcelo Aguiar exonerou nove diretores de regionais. A justificativa oficial foi a de que o GDF precisava arejar a área de educação.
Mas os servidores demitidos atribuem o afastamento à ligação estreita com José Valente. “Ele fez um bom trabalho e vários diretores de regionais realmente o apoiam. Depois de eu ser exonerada, o secretário me ligou para dizer que se tratava de uma medida administrativa com objetivo de oxigenar a Secretaria. Mas nas escolas corre um boato de denúncias sobre o uso da máquina para fazer campanha política a favor do Valente. Pelo menos na minha regional, isso não é verdade. Nunca usei o horário de expediente para promover o candidato”, diz Ana de Fátima Dias Henrique, ex-diretora da regional de Ceilândia, que agrega maior quantidade de escolas sob sua gerência. Um total de 88 instituições com 89 mil alunos matriculados.
A despeito de querer mudar os ares no comando da rede educacional, o governo se amparou no volume de denúncias feitas por professores que reclamaram da pressão política por parte de alguns diretores que agiam supostamente em nome de Valente para promover as exonerações. Entre os relatos recebidos pela Secretaria de Educação há casos de diretores regionais que teriam convocado professores e diretores de escolas em Samambaia, Recanto das Emas e Brazlândia para reuniões políticas.
Poucos dias antes das demissões, o secretário Marcelo Aguiar elaborou uma circular endereçada aos diretores regionais em que recomenda a leitura da cartilha de condutas vedadas aos servidores em face das eleições, além de decreto publicado em 1º de julho pelo governador com normas para o desempenho das atividades dos funcionários no período de campanha.
Além disso, Aguiar baixou uma ordem expressa comunicada na mesma circular de número 67. Proíbe os comissionados da rede de ensino de tirar férias em agosto e setembro. “Visando evitar quaisquer entendimentos distorcidos quanto às ações dos servidores ocupantes de cargo em comissão das Diretorias Regionais de Ensino, mesmo fora do expediente de trabalho, o eventual usufruto de férias marcado para os meses de agosto e setembro deverá ser suspenso, devendo ser alterado para outro período”, diz o secretário de Educação.
Uso da máquina
O grupo ligado a Valente acusa Aguiar de demitir os diretores regionais a pretexto de coibir o uso da máquina para fazer campanha, quando, na verdade, o secretário apenas teria substituído os correligionários de Valente por uma turma de diretores sintonizada aos interesses políticos da nova administração, simpática, portanto, a candidatos como Rejane Pitanga (PT) e Eduardo Lopes (PDT). Os dois concorrentes, assim como José Valente, que é filiado ao PMDB, disputam a preferência dentro da rede educacional com candidaturas lançadas na mesma coligação liderada pela dobradinha PT e PMDB.
Durante período de registro de candidaturas, petistas tentaram convencer Valente a abrir mão da disputa em nome de Rejane. Na época, o ex-secretário se consultou com Tadeu Filippelli, presidente regional do PMDB e vice na chapa de Agnelo Queiroz (PT). Filippelli encorajou Valente a continuar na disputa, mesmo com a resistência de petistas. Só não conseguiu evitar que no meio da campanha os cabeças de uma rede de apoio a Valente fossem excluídos da Secretaria de Educação.
Secretário de Educação por três anos durante gestão de Arruda, o candidato a distrital José Luiz Valente confirmou ao Correio que faz campanha com enfoque na rede educacional. Negou que tenha usado de sua influência com os diretores regionais para discutir política durante o expediente de serviço de servidores da secretaria. E assumiu autoria da planilha em que faz um “cálculo otimista” sobre o número de eleitores que pode atingir no universo escolar. “Só sou candidato porque avançamos bastante na educação do DF. Não daria para fazer campanha entre os corretores de imóveis”, diz. E insiste: “É absolutamente inverídico que tenha participado de qualquer reunião em horário de expediente. A única vez que me reuni com diretores de escola foi em Samambaia e não era em local público.”
Atual secretário de Educação, Marcelo Aguiar reafirmou que as demissões de diretores regionais tiveram como principal motivo indicadores de desempenho. Ele confirmou, porém, a existência de denúncias do uso da máquina para campanha em favor de candidatos. Avisou que tomou medidas como a edição da circular 67 com objetivo de coibir a campanha entre servidores no horário de serviço. Desmentiu a versão de que a medida atenda a interesses políticos. “Todas as minhas ações foram no sentido de evitar o uso da máquina para beneficiar candidato A ou B. Esse não é o nosso papel. Em horário de expediente, todos têm de estar com a cabeça voltada para o bom desempenho com os estudantes”, diz Aguiar.
Ex-presidente da CUT, Rejane Pitanga, que é candidata a distrital, atuou durante anos como dirigente do Sindicato dos Professores (Sinpro). Ela afirma que respeita a candidatura de Valente, mas, apesar de o ex-secretário fazer parte da mesma coligação, não esconde suas diferenças com ele. “Ele está vinculado a um modelo de gestão problemático, participou do governo Arruda e considero que temos trajetórias absolutamente diferentes”, disse, numa clara demonstração de que, se depender dela, a disputa por eleitores na rede de educação não terá trégua, nem entre concorrentes de uma mesma coligação.