Secretário de Saúde do Distrito Federal por quatro vezes, o deputado federal Jofran Frejat (PR) tem rodado as cidades já como pré-candidato a vice na chapa do ex-governador Joaquim Roriz (PSC). “Roriz foi o único a me fazer um convite formal”, explica ele, que havia sido cotado para compor também da chapa do petista Agnelo Queiroz. “Agora esperamos o aval de meu partido”. Quem quer que leve o aval doPR- e o nome de Frejat - para a campanha levará também uma política clara de fortalecimento da rede pública de Saúde. É no que Frejat, um dos responsáveis pela criação do Sistema Único de Saúde (SUS) no país, defende e acredita. Confira trechos da entrevista concedida por ele a edição desta semana do jornal O Distrital:
O governador Rogério Rosso (PMDB) anunciou uma série de medidas esta semana para descentralizar as ações de Saúde e tentar fortalecer uma área que enfrenta hoje uma das piores crises do Distrito Federal. Dá tempo e há como resolver isso?
Jofran Frejat - O tempo é curto, sim. Mas se houver vontade política, resolve. Porque, na verdade, o que mudou no Distrito Federal foi o entendimento do governo com relação à Saúde. No tempo em que estive à frente da Secretaria de Saúde (Frejat foi secretário por quatro vezes, entre 1979 e 2002), nós nunca nos utilizamos de UTI particular. Nós sempre procuramos ampliar as UTIs, como foi ampliada a do Hospital de Base, do HRAN, criada a de Ceilândia, reaberta a de Sobradinho que havia sido fechada. Tudo isso é uma demonstração de que se está preocupado com o serviço público.
Mas qual foi o caminho que a Saúde tomou nos últimos anos? O caminho da terceirização dos serviços. E qual é o raciocínio? O serviço terceirizado, o particular, tem um objetivo que é lucro. A prioridade não é a prevenção. É fazer transplante, cirurgia cardíaca, hemodiálise, que são os procedimentos que dão lucro. E é nesta direção que estamos caminhando. Voltar a ter um serviço público de saúde de qualidade é difícil, mas é possível. Só que vai demorar mais um tempo.
Mas a explicação para a procura pela iniciativa privada é a incapacidade do atual sistema de atender à demanda da população. A isso aliado o fato de os pacientes recorrerem ao Ministério Público para assegurar seu atendimento, ainda que na rede privada…
Frejat - Claro. Mas, por que não se cria UTIs? Qual é a dificuldade em fazer isso? Recursos financeiros existem. Com tantos hospitais aí em que seria possível ampliar o atendimento de UTI… Apesar de que há uma pressão muito grande, por parte dos profissionais, para botar na UTI porque o médico opera e deixa o paciente internado na terapia intensiva para ir cuidar de outros negócios. Mas se está precisando de UTI? Abre-se espaço para ela. São precisos novos leitos? Abre-se espaço para eles. Há quanto tempo não se faz um hospital novo no Distrito Federal? A não ser o de Santa Maria, que até hoje não tem atendimento completo. Por que não ampliar a rede pública?
Mas a demanda, com certeza, aumentou.
Frejat - A demanda aumentou, não tem jeito de a demanda não aumentar. Eu até acho graça quando o pessoal reclama que está vindo muita gente para Brasília. E a gente veio de onde? Todos nós viemos buscar uma oportunidade aqui, então não podemos reclamar que outros estão venham fazer o mesmo. Agora o projeto inicial da rede pública de Brasília, o projeto piramidal que a gente criou, ele funcionou bem, mas não poderia parar. Todo plano pronto e acabado envelhece precocemente. É preciso crescer. Recanto das Emas precisa de um hospital, Riacho Fundo precisa de um hospital. Se você comparar com o setor privado, aonde eles percebem que tem demanda, eles entram. Já o governo ficou parado.
Sei que não é fácil conduzir o governo, mas é preciso enfrentar os problemas. Não se deve ter medo do Ministério Público. Ele age porque as pessoas não podem morrer, é um direito delas serem atendidas. Mas isso tem de ser a exceção, não a regra. Agora, em minha opinião, já há algum tempo há no Distrito Federal uma política de precarização do serviço público de saúde com o objetivo de entregar para o setor privado. Um sinal é a falta de valorização do servidor público. Como é que eles foram tão competentes no passado e hoje não são mais? Não dá para entender.
Outro problema é manter os servidores mais perto da população. Hoje o funcionário que entra no centro de saúde lá em Planaltina ou Brazlândia, no dia seguinte já está pedindo transferência para o HRAN, para o Hospital de Base. Por quê? Porque ele tem um consultório aqui perto e ele quer algumas facilidades. Então é preciso ser rigoroso nisso. Se não ocorrem equívocos grandes como a desativação dos centros de saúde.
Por que sem centro de saúde, a população sobrecarrega os hospitais?
Frejat - Sim. Em 1979, quando eu assumi pela primeira vez a Secretaria de Saúde, 70% dos atendimentos eram feito nos prontos socorros de hospitais. Eu construí os centros de saúde e comecei a colocar o pessoal nos centros - o clínico, o pediatra, o ginecologista, o dentista, um programa de vacinação. Em menos de dois anos conseguimos atender, nos ambulatórios, 62% dos pacientes e 38% nos prontos socorros. Nossa meta era chegar aos 80%/20%, não chegamos. Mas aí o que aconteceu, começaram os problemas de profissionais querendo sair dos postos de saúde e aqueles que estavam no hospital não aceitavam fazer o rodízio nos centros. Porque não é justo deixar um ginecologista no posto de saúde sem nunca ter oportunidade de fazer um parto. Ao mesmo tempo, aquele que está no hospital precisa ir, ao menos dois dias, ao centro de saúde, até para ele entender que, se ele adotar a “reboqueterapia”, encaminhando o paciente para o hospital de qualquer jeito, esse paciente pode cair nas suas próprias mãos lá na frente.
Só que, diante dos problemas, começaram a esvaziar os postos de saúde politicamente. Os apadrinhados políticos começaram a deixar os postos para ir para os hospitais. Esvaziaram o centro de saúde e a credibilidade inicial dos centros, o que a população gostava, começou a ser desmerecida. A população começou a dizer “eu não vou ao centro de saúde porque não tem doutor, não tem remédio”. Aí o paciente passou a abandonar o centro. E entra uma coisa que digo sempre: para você criar uma reputação é difícil, agora reconstruir uma reputação destruída é mais difícil ainda.
E tem como reconstruir?
Frejat - A primeira coisa é assegurar: “não haverá ingerência política”.
Isso não é difícil no cenário político que vivemos hoje?
Frejat - Não é, não. Eu nunca deixei. Não tinha esse negócio de colocar diretor de hospital a pedido de fulano de tal. Porque isso nunca dá certo, o diretor não te obedece, ele está ligado a uma outra pessoa. E essas pessoas (políticos) muitas vezes, por maior que seja seu interesse, não estão dentro do sistema para saber como resolver os problemas. Então o primeiro passo é acabar essa prática. Se você não faz isso, se complica. Até com o servidor, que diz “ah, se estão fazendo isso aqui, por que é que eu não vou fazer?”. Saúde não se mistura com política. Tem de haver é uma política de saúde e não política na saúde.
Para isso é preciso agir com seriedade. Como eu venho para o HRAN, ou HRAS, ou Hospital de Base? Tem uma fila. Você vai dar sua colaboração tanto tempo lá em Brazlândia, ou em Planaltina, ou em Arapoanga e, à medida que houver vagas no Plano Piloto, você vem.
A Inglaterra faz isso. Ninguém chega recém-formado no sistema de saúde inglês e vai para os hospitais de Londres. Vão para onde mandam. E lá fica o tempo que for necessário até galgar sua posição. Hoje, por exemplo, se nomeia para um hospital alguém que saiu ontem da residência médica. Nada contra isso. Mas há o pessoal antigo, que deu o sangue, que têm conhecimento do funcionamento da rede. E isso desmotiva aqueles que não têm padrinho. Para esses, é melhor ficar na oposição.
Veja só, em 2001, nós fomos líderes nacionais, proporcionalmente, em transplante renal. Nós tínhamos os melhores índices de vacinação, fomos os primeiros a acabar com a pólio no Brasil. Isso a partir de um trabalho feito a médio e longo prazo. É possível conseguir de novo? É. Mas demanda tempo. Até porque é preciso restabelecer a credibilidade e a confiança da população. Eu digo para os meus colegas, que reclamam da carga de trabalho e da relação com os pacientes, que ninguém sabe mais quem está atendendo. O paciente não tem mais nome, é apenas “o próximo”. E o paciente já entra de má vontade, afinal o médico não sabe nem quem ele é.
É preciso mudar também a cultura dos profissionais da área?
Frejat - Com certeza. Se isso não mudar - e é por isso que a Faculdade de Saúde do DF ficou tão importante para uma nova formação profissional - nós seguramente vamos continuar neste distanciamento entre médico e paciente. (A Escola Superior de Ciências da Saúde foi criada em 2000, por Jofran Frejat). Na faculdade, desde o primeiro ano, o estudante freqüenta os centros de saúde, acompanha os atendimentos. Ele vai saber quem é Dona Maria, qual é a condição sanitária dela, como vive, o que come e o que não come, e passa a se relacionar com esses pacientes. O aluno tem um conhecimento geral da Medicina. O corpo humano não é um olho, um coração. É um complexo. E essas coisas a gente tem de repensar.
A ESCS, no último Enade da área, foi considerada uma das oito melhores escolas de Medicina do país. O bom desempenho é resultado desse conceito?
Frejat - A faculdade é diferente das outras. O aprendizado é conseguido diante de problemas práticos. Na busca pela solução desses problemas é que o aluno aprende. Neste ponto é que ela é diferente das demais. Tanto é que o conceito dela foi tão bom no exame e já existem outras escolas imitando, copiando esse estilo de ensinar Medicina. Os meninos que têm saído da faculdade são os primeiros a serem aprovados nas residências médicas por aí. Por quê? Porque a formação deles é diferente, eles têm uma visão geral, humanística. Coisa que desapareceu hoje em dia.
Todo esse conceito de fortalecimento da Saúde Pública entra na proposta de governo de quem levar o deputado federal Jofran Frejat para sua chapa majoritária?
Frejat - Ah, entra. Para a aliança que se concretizar, a proposta é essa. Quem não tiver compromisso com a população, para mim, não tem valor. De que adianta você ser um parlamentar, um governador, se você não tem compromisso com a população?
E quem está levando essa proposta é o ex-governador Joaquim Roriz (PSC)? O senhor está confirmado como vice na chapa dele?
Frejat - Bom, eu recebi sondagens de todos. Todos falaram comigo sobre isso. Só que o único que me fez um convite formal foi Roriz. Os outros ficaram apenas nas conversas. Na prática, eu acho que o PT já está definido com o PMDB e que outros não tinham condições reais de saírem candidatos. Então eu disse a Roriz “em princípio eu aceito, agora eu preciso saber do partido, porque não adianta eu querer ir sozinho”. E as conversas estão andando. O que acontece é que meu partido, o PR, está na base do governo federal. Naturalmente há pressões para que esta aliança se repita no Distrito Federal. Só que para isso é preciso saber quais posições serão definidas aqui. Por que as coisas já podem estar definidas do outro lado (do lado do PT) e eles continuarem falando “queremos você aqui”. Mas como? Como seria minha participação? Já ouvi até que gostariam muito que eu ficasse com um grupo porque estaria dando credibilidade ao grupo adversário. Até isso já foi colocado. Eu digo “ótimo, fico feliz. Porque como estou sendo desejado por vocês e pelos outros é sinal de que não há restrições ao meu nome. Então amanhã vocês não podem me atacar”.
Agora vamos ver o que vai acontecer. Porque o que nós queremos é fortalecer o PR. E faremos isso abrindo espaço para mais deputados e mais cargos eletivos. Nós queremos prestigiar o partido.
O senhor acredita que, depois de toda essa crise, vivemos um novo momento na política do Distrito Federal?
Frejat - Com certeza. É um novo momento da política. Eu acho que dessa crise surgiu uma oportunidade. De a gente dar um novo caminho para o Distrito Federal. Até porque o eleitor precisa ficar mais atento. O eleitor tem de ver se ele vai votar nas pessoas reconhecendo aquilo que elas fazem e os compromissos que têm ou se ele vai votar simplesmente em alguém que fez propaganda. Eu acho que o eleitor tem de cobrar posições políticas.