Chico Leite*
Cumpridos os pressupostos iniciais de integração do território, desenvolvimento econômico da porção central e modernização do país, paralelamente, Brasília passou a sofrer de males comumente observados nas demais cidades brasileiras. Repetiu-se em nossa cidade um modelo existente em grande parte do país, que privilegiou certas regiões em detrimento de outras, concentrou riquezas e oportunidades e gerou, em contrapartida, favelas, violência e desigualdade.
Tal modelo político patrocinou sua manutenção no poder empregando como moeda de troca a própria cidade, na face da grilagem, do patrimonialismo, da multiplicação de cargos comissionados, sem concurso público, e pelo uso eleitoreiro de programas habitacionais.
A cidade sonhada por JK, a “capital da esperança”, “cidade do futuro”, deveria ser diferente, mas não foi. Segundo a ONU, Brasília (na verdade o DF) é uma das cidades mais desiguais do país.
É essa a conjuntura que devemos enfrentar para reinaugurar Brasília. Atualmente, são notórios os problemas de congestionamento no DF devido, em grande parte, à gênese de seu território, que criou núcleos urbanos extremamente distantes, ao passo em que concentrou quase 70% dos empregos formais em Brasília.
É importante que a política de regularização fundiária estabeleça claramente uma linha divisória a partir da qual o processo de ocupação irregular seja absolutamente estancado. Precisamos romper definitivamente com a lógica anterior de acesso ao solo, baseada na informalidade, na privatização de benefícios e na socialização de ônus.
A cidade carece, portanto, de gestores modernos, capazes de corrigir as distorções do passado e projetar a capital do país para o futuro grandioso pensado por seus idealizadores.
Uma moderna administração deve aliar a criação de oportunidades fora dos eixos centrais a investimentos maciços em transporte coletivo, a exemplo do que vem ocorrendo nas grandes cidades mundiais. Deve comprometer-se com o fortalecimento e ampliação da transparência, da democracia participativa, para que se tornem um instrumento poderoso contra a corrupção, que marcou definitivamente administrações passadas e envergonhou toda a sociedade local.
Torna-se fundamental, portanto, respondermos de forma propositiva a tantos desafios, de forma a reinaugurarmos a cidade, que deve ser mais justa para o conjunto de sua população, e organizada, modelo de boas práticas políticas e de gestões públicas modernas e progressistas.
*Chico Leite é Procurador de Justiça do MPDFT (licenciado), Professor de Direito Penal e Deputado Distrital pelo Partido dos Trabalhadores






