Presidente do PMN-DF e candidata a deputada federal nestas eleições, a deputada distrital Jaqueline Roriz enfrenta a dualidade de ser filha de um dos políticos mais importantes e controversos do Distrito Federal. Talvez por isso esteja passando por um dos momentos mais difíceis de seu mandato, com a vitória do grupo opositor a Joaquim Roriz para o comando do GDF. Como uma das líderes da nova oposição na Câmara Legislativa, se diz preocupada com os acordos fechados para a eleição indireta do peemedebista Rogério Rosso e desmente o suposto apoio dado por seu pai a Wilson Lima, adversário de Rosso na disputa. Em entrevista desta semana o jornal O Distrital, a deputada também questiona a postura do Ministério Público, que considera “eleitoreira”. Confira trechos da conversa a seguir ou clique aqui.
A senhora acredita que agora, com a eleição do novo governador, o Distrito Federal entra na normalidade?
Jaqueline Roriz – Eu não acredito. Por causa do comprometimento dos votos que elegeram o novo governador. Veja bem, eu não estou falando da competência dele. Acredito até que Rogério Rosso é mais competente do que muita gente que já disputou este cargo. Ele administrou Ceilândia, que é a maior cidade do Distrito Federal, e foi muito bem na época, então a dificuldade que ele pode ter não é por falta de experiência. Acho que a maior dificuldade vai ser administrar os compromissos que ele fez para viabilizar sua eleição. E isso não sou apenas eu que digo. Os tais compromissos estão correndo a cidade. E isso é muito sério.
Além dos oito votos que ele recebeu (de deputados citados na Operação Caixa de Pandora), outros votos me causaram estranheza. Dois votos de distritais cujo partido tinha um candidato e ele não recebeu nenhum voto. Que compromissos foram feitos com o PTB para eles não votassem no próprio candidato do partido? Terracap, Secretaria de Desenvolvimento Econômico, de Saúde… Que tipo de comprometimento são esses? Eu tenho essas preocupações. Tenho muito receio do que foi feito para essa eleição ser realizada.
Me estranha muito também o fato de um deputado estar na mesa de negociação com Wilson Lima e, faltando dez minutos para a eleição, decidir não votar mais nele. Essas coisas me causam muita estranheza. Não só a mim como à população do Distrito Federal inteira.
Foi essa estranheza que levando a senhora e outros distritais para uma oposição ao atual governo? As relações ficaram difíceis depois da eleição?
Jaqueline – Não acho que é isso. Mas me preocupa, por exemplo, o grau de comprometimento do PT com essa eleição. Semana passada o deputado Paulo Tadeu deixou claro, em seu discurso como líder do PT, que não existem compromisso nem comprometimento do partido com o novo governo. Isso me dá até uma certa tranqüilidade, saber que não vai haver interferência na Câmara Legislativa contra uma oposição séria. Não será uma oposição por oposição. Mas oposição com fundamento, oposição nas questões que a gente vê que tem interesses escusos, essa oposição tem de existir.
Mas a quem defenda que este é um momento excepcional em que não seria adequado fazer oposição ao governo…
Jaqueline - Eu discordo totalmente. É salutar ter oposição. O que eu tenho grandes problemas é entender o posicionamento de pessoas nesta Casa. Pessoas que não definem o que elas são. Veja bem, eu votei contra o Wilson Lima (na eleição para presidente da Casa, em fevereiro, Jaqueline votou no candidato do PT, Cabo Patrício). Mas naquele momento Wilson Lima representava um governo que estava sendo investigado, que estava na Caixa de Pandora. Num segundo momento, eu fui lá conversar com ele. Foi conferir o comprometimento dele com a cidade, ele me contou que já havia visitado o procurador-geral, contou que havia estado até com Dilma (Roussef, ministra da Casa Civil e candidata petista à Presidência). Naquele momento eu senti que ele poderia conduzir este processo com isenção. Engana-se quem acredita que (o ex-governador Joaquim) Roriz interferiu nisso. É ridículo o que se diz nesta cidade.
Mas a notícia era de que o ex-governador Joaquim Roriz teria apoiado Wilson Lima e até pedido votos para ele.
Jaqueline - Meu pai tinha o candidato dele: chamava-se Paulo César Ávila. Percebeu-se que não tinha como viabilizar o nome dele, e ele retirou sua candidatura. Nós fizemos uma análise entre os candidatos e ele resolveu, por bem, apoiar Wilson Lima. Mas jamais deu um telefonema para Wilson Lima. Chegou um momento que eu até liguei para Wilson e ofereci: se você quiser, eu falo que não estou dando meu apoio a você.
A senhora acha que a história do apoio de Joaquim Roriz a Wilson Lima foi criada para prejudicar a candidatura dele?
Jaqueline - Acho que foi uma jogada muito esperta de um certo cidadão, que não vou citar o nome, para acontecer exatamente o que aconteceu.
A criação de uma frente anti-Roriz contra a candidatura de Wilson Lima?
Jaqueline - Sim. Foi inteligente, esperto, e a imprensa comprou a ideia com facilidade. Mas não existiu esse apoio, jamais teve. Dou minha palavra que não teve. Meu pai convidou para vice Jofran Frejat (deputado federal), que é do partido de Wilson Lima (o PR), mas nem o aval do partido ainda a gente tem. O que me causa estranheza é o próprio partido dele não tê-lo apoiado (a deputada fala do outro distrital do PR, Aylton Gomes, que também votou em Rogério Rosso).
Isso já foi o prenúncio da eleição. Se meu pai estivesse em último lugar nas pesquisas ninguém ia estar preocupado com a interferência dele, com esse apoio. Achei que foi uma vinculação muito traiçoeira. Ontem vi uma declaração do deputado Benedito Domingos (PP) de que, quando percebeu que Roriz estava apoiando Wilson Lima, ele saiu da campanha. Mentira! Ele me chamou para uma reunião no gabinete dele na sexta-feira, véspera da eleição, e ele ainda apoiava Wilson. E naquele momento todo mundo já sabia dessa história.
A senhora é presidente do PMN-DF. Como estará o partido aqui e nacionalmente?
Jaqueline - No Distrito Federal estamos em uma ampla coligação com o PSC de Joaquim Roriz. Nacionalmente, a presidente do partido, Telma Ribeiro, esteve no lançamento da candidatura tucana de José Serra à Presidência da República, e as conversas são para uma aliança com o PSDB. Não foi formalizada ainda como a com o PPS já foi, mas a probabilidade é de que vá sim acontecer.
E essa aliança vai ajudar a trazer o tucano José Serra para o palanque de Roriz?
Jaqueline - Estamos trabalhando para isso. A Abadia (ex-governadora Maria de Lourdes) é uma grande liderança do PSDB aqui. E ela já sinalizou que a intenção dela é essa. Não só é intenção como ela pretende ser candidata em outubro aliada ao grupo de Roriz. Ela é uma pessoa muito habilidosa, ela está sabendo puxar o partido para o lado do Roriz. E não seria novidade isso, né? Roriz sempre ofereceu palanque para o PSDB. Ele coordenou a campanha de segundo turno do Alckmin (Geraldo, candidato à Presidência em 2006).
A senhora acha que vai ter polarização nesta eleição?
Jaqueline - Vai ter azul contra vermelho de novo. Vai.
Depois da crise política na capital, espera-se que esta seja uma eleição muita pautada na moralidade e na ética. Mas o ex-governador Joaquim Roriz tem sido alvo de inúmeras denúncias do Ministério Público. A senhora acredita que será possível superar isso?
Jaqueline - As denúncias que estão aparecendo do Ministério Público são de antes de 2006. Como diz o assessor de imprensa do meu pai, Paulo Fona, é a Operação Zumbi, ressuscitando coisa que já morreu. Eu não consigo acreditar que alguns membros do Ministério Público se prestem a esse trabalho eleitoreiro. E é ridículo que o Ministério Público, sério como é, aceite isso. Roriz já está há três anos sem cargo público e sem foro privilegiado. Por que a Justiça não agiu neste tempo? Levaria ele para a cadeia se tivesse motivo. Está visível e as pessoas não são tolas. Estão percebendo que é um ato totalmente eleitoreiro.
Então vai ser possível falar de ética?
Jaqueline - Se for analisar por esse ângulo, o PT também vai ter muito o que explicar porque o mensalão começou com o PT. O discurso da ética não pertence mais ao PT. Pertence àqueles que não se mancharam no processo. A ética agora é individual, não é partidária. No palanque do PT vão estar peemedebistas, vão estar lá outras pessoas que têm muito mais explicações a dar sobre ética.
E diante de tantas denúncias, o que a senhora acha que é possível fazer para recuperar a imagem da Câmara Legislativa?
Jaqueline - Eu conversei com duas pessoas sobre isso esta semana: meu pai e o deputado Raimundo Ribeiro. Perguntei a meu pai como governar com uma Câmara Legislativa deste jeito. Ele me disse “Sabe o que você tem de fazer? Manda o projeto. Se eles não aprovarem não tem discussão. Apenas mostre a população que não foi aprovado por que a Câmara não quis. Não tem negociação. E isso tem de acontecer no primeiro dia de governo”.
Depois conversei com Raimundo Ribeiro, que por sinal é um homem muito sério, e ele disse a mesma coisa: “Não pode negociar. Se o projeto for sério o deputado tem de votar pela sua consciência”.
A senhora acha então que o papel do Executivo é fundamental para mudar essa prática política que vemos hoje?
Jaqueline - Exatamente. E para governar esta cidade em 2011 vai ser preciso muita experiência no Executivo, não vai ser para qualquer um. Vamos ter um momento difícil. Por tudo o que aconteceu, aqui e no Brasil inteiro, vamos ter uma mudança de comportamento dos eleitores e dos políticos. Eu acredito muito nisso.