Segundo suplente do PMDB, apesar de ter sido o 24º candidato mais votado nas eleições de 2006, o deputado distrital Roberto Lucena (PR) retornou à Câmara Legislativa com o afastamento da peemedebista Eurides Brito do mandato por decisão judicial. Agora, Lucena tem a chance de ganhar a vaga de vez, caso Eurides seja cassada por seus colegas. Em entrevista ao jornal O Distrital desta semana, ele afirma que não vai votar no processo, mas revela uma proposta original, que serviria a sua colega caso estivesse em vigor: “eu queria propor que se deixasse uma carta de renúncia, logo no início do mandato, para quando acontecesse de um deputado envolvido em uma coisa confirmada, com sua voz ou sua imagem, ele deixasse imediatamente o mandato”, afirma. Confira a seguir trechos da entrevista em que o deputado fala sobre Saúde pública, campanha e a relação com o irmão, o empresário Gilberto Lucena, dono da Linknet. Para ler entrevista no jornal, clique aqui.
O senhor voltou mais uma vez à Câmara Legislativa, desta vez com possibilidade de concluir o mandato, caso a deputada Eurides Brito (PMDB), de quem é suplente, venha mesmo a ser cassada (o pedido de cassação foi aprovado por unanimidade na Comissão de Ética e chega nos próximos dias a plenário). Como é assumir o cargo no finalzinho do mandato?
Roberto Lucena - Eu acho que será um bom complemento. O que vier agora vai ser bom. Vai ser lucro. Até porque eu não vou deixar de ir à Câmara (durante a campanha) e fazer o meu papel como parlamentar.
O senhor trocou o PMDB pelo PR, por quê?
Lucena - Eu acho que eu nasci para partido grande. Se você conhecer minha história e a estrutura que eu tive na campanha, foi muito ter ficado entre os 24 mais votados (Lucena foi exatamente o 24º , com 11.092 votos. Teve mais votos que quatro dos parlamentares eleitos). Isso sem nunca ter tido uma administração (regional), sem ter tido nada, e ter a votação que eu tive. Mas é difícil disputar a base com pessoas privilegiadas, com estruturas enormes e muita abertura e participação no governo. Então esse foi um dos motivos pelos quais saí do PMDB. Não que eu tenha medo dessa disputa, de maneira alguma, mas é uma desvantagem, essas pessoas já saem na frente na campanha. É uma campanha muito mais difícil.
Então, para que isso não ocorresse novamente – de eu ter voto e ficar entre os 24 mais votados, mas não entrar devido à legenda – eu mudei de partido. No PR, eu acho que posso disputar em condições iguais. Porque esse é o grande erro do sistema eleitoral atual. Deveriam entrar na Câmara os mais votados. É um sistema totalmente injusto.
E o que o senhor acha da coligação de seu partido com o ex-governador Joaquim Roriz (PSC)?
Lucena - Essa questão de governador eu ainda estou avaliando. A decisão do PR não é a minha decisão.
O senhor é irmão do empresário Gilberto Lucena, dono da empresa Linknet, que aparece em vídeo gravado pelo ex-secretário Durval Barbosa reclamando do valor da suposta propina a ser paga no governo. Além disso, a Linknet aparece citada em outras denúncias ligadas ao GDF. Como é a relação entre vocês?
Lucena - Será que esse é um defeito que eu tenho ser irmão dele? Porque eu não acho que seja defeito. A minha consciência é o que conta. Eu não uso nem verba indenizatória (em sua passagem pela Câmara, Lucena é um dos deputados que menos gastou o recurso de quase R$ 12 mil a que os parlamentares têm direito para ajuda no mandato). Porque era uma coisa que eu não achava legal de usar. Um professor não tem pelo menos R$ 1 mil de ajuda de custo para colocar gasolina para trabalhar, por que um deputado vai ter? Então o que me conforta nessa situação é a minha seriedade e o meu trabalho. Nós somos seis irmãos, todos independentes. Cada um dono do seu nariz. E cada um que se defenda. Eu fico tranqüilo porque a Justiça está atenta a isso.
Mas seu irmão foi um dos principais financiadores de sua campanha…
Lucena - Mas o que seria melhor, eu ter feito caixa dois? As doações foram declaradas, fomos honestos com o eleitor e com a Receita Federal. Agora ele ajudou (o senador) Demóstenes Torres (DEM-GO), que não é irmão dele, ajudou o Marcelo Miranda (governador cassado de Tocantins), que não é nada dele, e aí? Qual é o problema de ele ter me ajudado? E ainda atuamos em áreas totalmente diferentes. Me formei político dentro da minha categoria médica (Lucena é cirurgião), que inclusive é implacável com quem pisa na bola. Se você me oferecesse hoje o maior prêmio do mundo para eu responder a diferença entre licitação normal e pregão, eu te juro que perderia o prêmio porque não sei responder. Eu fui tão ético que nem pedir voto na Linknet eu fui. Houve candidato que nadou de braçada dentro da empresa. Se eu tive uns votinhos lá foram de pessoas que me conhecem pelo meu trabalho.
O senhor vem de uma área que virou, nos últimos anos, um dos principais problemas do Distrito Federal: a saúde. Há solução para o caos que vemos hoje no serviço público?
Lucena - Eu acho que, antes de tudo, um secretário de Saúde tem de ter o respaldo e um bom relacionamento com a categoria, médicos e servidores da Saúde. Segundo, as pessoas que ocuparem cargos de chefia precisam ser dedicadas e humanas, atentas aos problemas dos pacientes. Pessoas que não sejam apenas burocratas. Acho até que essas pessoas poderiam ter remuneração diferenciada. Se todas as chefias fossem ocupadas com pessoas com este perfil, a Saúde pública melhoraria uns 50%.
Por fim, é preciso organizar. Não adianta tentar resolver tudo de uma vez. É preciso fazer por partes. Por exemplo, começamos pela radiologia. Fazemos um diagnóstico. Faltam quantos técnicos? Quantos equipamentos estão parados precisando de conserto? Então procuramos resolver esses problemas. Eu acho que com 120 dias se resolveria a questão da radiologia. Pronto, daríamos um grande passo. Aí então cuidaríamos de outra coisa, cirurgia geral, ginecologia, até organizar uma por uma.
Outra questão seria o aproveitamento do dinheiro público. É preciso investir na fiscalização, pedir ajuda ao Ministério Público, criar um conselho consultivo. Sou contra, por exemplo, a privatização da Saúde. Porque na privatização, alguém está lucrando que não é o paciente. Eu investiria os recursos da Saúde na rede pública, no fortalecimento da rede pública, no funcionário.
Qual avaliação o senhor faz do novo governo eleito pela Casa?
Lucena - É um governo que está em fase inicial, tem pouco tempo, mas precisa, da maneira mais ética possível, compor com todas as forças políticas. Só assim terá governabilidade. E é preciso ficar muito atento ao que pode estar ocorrendo na política para oferecer um governo em que ganhe o povo.
O senhor compõe o bloco independente recém-criado na Casa e que contem integrante de seu partido (o presidente da Casa, Wilson Lima, do PR)?
Lucena - Eu não estou em bloco nenhum, eu sou do bloco do povo.
Mas o senhor reconhece a mudança na composição de forças de quando assumiu a primeira vez em 2008 e agora?
Lucena - Pelo menos por uma coisa eu tenho de parabenizar esse novo governo: chegava a ser jocosa a disparidade de forças na época do governador anterior (José Roberto Arruda). Era uma coisa frustrante. Como suplente às vezes ter de fazer coisas, algumas votações, contra os meus princípios, contra aquilo que eu penso. Por conta da força do governo e por conta de ser suplente.
Isso, graças a Deus, não existe mais. Aquele cabresto vergonhoso, que existia quando eu passei pela primeira vez na Câmara, não existe mais. Agora os dois poderes estão mais equilibrados, até por conta de interesses particulares. Hoje o parlamentar, principalmente aquele que realmente pensar no povo, ele tem mais chance de aparecer, aparecer para o bem.
O senhor acha que a Câmara Legislativa deu uma resposta à população então?
Lucena - Eu acho que nós temos de fazer muito mais. O que foi feito no passado ainda é muito frágil, não é nem o mínimo do que a população aguarda. É obrigação da Câmara fazer mais e mais depressa.
E em relação aos processos contra os parlamentares envolvidos nas denúncias? O senhor pode ser diretamente beneficiado por um deles…
Lucena - Eu acho que o processo contra a deputada Eurides Brito está caminhado. Eu não vou participar da votação dele, até por uma questão de ética e preferia não fazer comentários sobre ele. Acho que ele está caminhando, sim, do jeito que todos os demais processos deveriam ter caminhado.
Eu queria propor na Câmara que se deixasse uma carta de renúncia, logo no início do mandato, para quando acontecesse de um deputado envolvido em uma coisa confirmada, com sua voz ou sua imagem, ele deixasse imediatamente o mandato, se licenciasse para que o processo fluísse. Olha, eu te garanto, se um dia me pegarem em uma falcatrua eu renuncio imediatamente.
Deixa eu te contar uma coisa, minha filha de nove anos (a caçula dos filhos de Lucena) me perguntou: “pai, o s senhor é um político honesto e faz o bem, por que falam mal de você?” (o deputado embarga a voz e chora. Encerramos a entrevista.)






