Hélio Doyle*
Quando eu era criança e morava no Rio de Janeiro, passava as férias escolares em Belo Horizonte, onde meus pais viveram até se casarem e se mudarem para o então Distrito Federal, onde nasci. Lembro-me bem de passeios de carro que fazíamos com meus pais em BH: eles iam mostrando as casas em que haviam morado, os locais que frequentavam quando jovens, espantando-se com o crescimento da cidade, com a ocupação dos vazios, com as áreas antes desertas plenamente habitadas. Prédios no lugar de casas, ruas asfaltadas onde havia trilhas no mato. Reclamavam das mudanças, sentiam a nostalgia dos tempos em que Belo Horizonte era ainda jovem, com menos de 50 anos.
Brasília agora completa apenas 50 anos e sinto a mesma sensação que meus pais. Lembro-me das brincadeiras na poeira e no barro das superquadras, das viagens do Plano Piloto para Taguatinga ou Sobradinho tendo às margens apenas o verde do cerrado. Lembro-me do mato que era o Sudoeste e do horizonte limpo de construções. Da tranquilidade do Eixo Rodoviário, que nos permitia atravessá-lo sem maiores riscos e até pedir para o motorista do ônibus que vinha de Goiânia ou São Paulo dar uma paradinha e me deixar ali mesmo, em frente à 106 Sul, para não ter de seguir até a Rodoviária e voltar.
É claro que as cidades crescem e mudam de fisionomia, é natural que as áreas vazias sejam ocupadas. Que o barro dê lugar ao asfalto, que as árvores sejam derrubadas para que prédios sejam construídos. Que não seja mais possível jogar bola em ruas que se transformaram em vias de movimento intenso. Nós, que vivemos os primeiros anos de Brasília, temos saudades daqueles tempos e também manifestamos nossa nostalgia.
Brasília cresceu e mudou. Em alguns aspectos, para melhor. Em outros, para pior. Carrega consigo as contradições de uma cidade nova de que já falava Joaquim Pedro de Andrade nos anos 1960. Metrópole por um lado, cidade do interior por outro. Cosmopolita e provinciana. Progressista e reacionária. Lago Sul e Estrutural. Plano Piloto e Águas Claras. Ruas vazias, lugares cheios. BMW e carroça puxada por cavalo na mesma tesourinha. Moradores honestos e desonestos.
Brasília tem as virtudes e os problemas de todas as cidades populosas, as grandezas e as pequenezas de qualquer lugar do Brasil. Não é a ilha da fantasia pintada pelos que a destratam, nem uma cidade comum, banal. Aqui não jorra leite e mel, como sonhou Dom Bosco, mas o índice de desenvolvimento humano é o maior do País e o índice de desigualdade social é o quarto pior. Não é a utopia dos planos de Oscar Niemeyer e Lúcio Costa, nem o inferno imaginado pelos udenistas e antimudancistas. É uma cidade metida a ser Estado, com bairros acreditando que são cidades e prefeito fingindo ser governador. Uma cidade diferente, mas igual às outras — a mais paradoxal de todas as paradoxais cidades brasileiras.
O problema nos 50 anos não é Brasília ter crescido e se desenvolvido, ter recebido milhares de pessoas vindas de todos os cantos para trabalhar, estudar, viver melhor. Tinha de ser assim, a dinâmica inevitável de uma cidade bem-sucedida é essa. O problema é que em muitos aspectos cresceu mal, submetendo-se à lógica do crescimento a qualquer custo, predatório, que no discurso beneficia todos, mas na prática só beneficia uns poucos, pouquíssimos.
Os que previram os problemas tentaram resistir e lutaram para evitar o pior. Mas esbarraram em duas muralhas poderosas: antes, o autoritarismo e a prepotência dos militares; depois, a arrogância e a politicagem dos civis. Todos mostrando não ter compromisso com a cidade, com as ideias que nortearam sua construção, com a real qualidade de vida dos candangos por nascimento ou por adoção. Em diferentes graus, às vezes mais, às vezes menos, mas na essência sem se preocupar com o futuro da cidade e de seu povo, mas com seus planos políticos, suas vaidades e seus bolsos.
Nas duas situações, em primeiro lugar foram colocados os interesses dos poderosos, dos que têm poder político, poder econômico e poder na mídia. Sejam quais fossem esses interesses, servidos juntos ou separados: econômicos, financeiros, políticos, administrativos, personalistas. Toda generalização é perigosa e injusta e não se trata de personalizar ou colocar no mesmo balaio e no mesmo nível todos os que têm ou já tiveram poder real nesta cidade. Claro que nos tempos dos militares e agora no dos civis também houve gente e coisas boas, obras e realizações positivas para os brasilienses e para a consolidação da capital federal.
Mas na perspectiva histórica, embora seja tão curto o período, podemos reduzir o peso das personalidades e enfatizar as ações. Poderíamos exaltar o positivo, mas é mais produtivo ressaltar o que os poderosos fizeram — e fazem — de ruim em Brasília nesses 50 anos, por vontade própria, submissão a pressões, aceitação passiva, negligência ou omissão: o desvirtuamento do plano piloto, com aumento de gabaritos, adensamento excessivo das áreas centrais, liberalidade diante das transgressões; a destruição dos revolucionários sistemas de educação e de saúde e a deterioração do sistema de transporte público; a conivência com a ocupação de áreas públicas e com a grilagem de terras por pobres e ricos; a especulação imobiliária e a proliferação de condomínios em detrimento da qualidade de vida, do meio ambiente, do projetado Lago São Bartolomeu e da bacia do Paranoá; a partidarização e a politicagenização (diferente de politização) das polícias e de serviços públicos essenciais; o patrimonialismo, o fisiologismo e as práticas corruptas.
Entre esses dois momentos, o do autoritarismo e o da politicagem, houve um breve interregno quando José Aparecido de Oliveira pensou grande e olhou para o futuro, inscrevendo Brasília no Patrimônio Cultural da Humanidade e tombando o Plano Piloto. Não fosse isso, a situação seria hoje muito pior. O escandaloso PDOT recentemente aprovado não teria poupado o Plano. Estariam hoje sendo regularizados, ao gosto dos transgressores e dos demagogos, os maiores atentados contra a cidade.
Mas Brasília é mesmo paradoxal. Apesar de tudo, mantém ainda o espírito e a energia de seus construtores, a beleza do cerrado e do céu, a grandiosidade de seu projeto urbanístico e de sua arquitetura, o vigor de suas manifestações culturais, a força de seus habitantes que a amam e daqui não querem sair porque, com todos os problemas, a vida em Brasília ainda é melhor. Logo, ainda há tempo e disposição para desfazer o mal que foi feito e reconstruir nossa cidade. Nem que demore mais 50 anos. (Artigo publicado no Jornal da Comunidade)
*Hélio Doyle é jornalista e professor da UnB e vive em Brasília desde 1961.